Uma carta náutica da Marinha do Brasil é a representação gráfica oficial de uma área costeira ou de uma hidrovia, com profundidades, perigos, sinalização, linha de costa e auxílios à navegação. Para lê-la com segurança, é preciso identificar antes a escala, o datum, a unidade de sondagem e a data da última correção, e só depois interpretar os símbolos. A carta de papel, atualizada até o último aviso publicado, continua sendo a referência de planejamento, mesmo quando o navegante usa GPS ou uma versão digital.
O que é uma carta náutica da Marinha?
As cartas náuticas brasileiras são elaboradas pelo Centro de Hidrografia da Marinha, vinculado à Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN). Diferentemente de um mapa rodoviário ou de uma carta topográfica, a carta náutica foi desenhada para quem navega. Ela mostra a profundidade da água por meio de sondagens e de linhas de contorno, indica a natureza do fundo, assinala rochas, naufrágios e outros obstáculos, e registra faróis, boias, balizas, alinhamentos e limites de áreas de fundeio ou de restrição.
O valor de uma carta depende de sua atualidade. Uma informação correta na data da edição pode estar superada hoje, porque bancos de areia se deslocam, boias são alteradas e sinais são desativados. Por isso, a leitura da carta começa sempre pela confirmação de que ela está corrigida, e não pelo desenho da costa.

Como ler o cabeçalho, a escala e a rosa dos ventos?
O cabeçalho e as notas da carta trazem as informações que determinam a forma de interpretar todo o restante. Comece pela escala: uma escala maior (denominador menor) mostra uma área pequena com mais detalhes, enquanto uma escala menor mostra uma área extensa com menos detalhes. Para uma aproximação a um porto ou a um canal estreito, use sempre a carta de escala maior disponível. Usar uma carta de escala pequena nesse trecho pode esconder perigos que não aparecem no desenho geral.
Em seguida, localize a nota sobre o datum de sondagem, isto é, o nível de referência ao qual as profundidades estão contadas. Essa informação é decisiva, porque a maré altera a altura da água e a profundidade real em determinado momento é a profundidade indicada somada ou subtraída da altura da maré prevista. A carta não substitui a consulta à previsão de marés, que deve ser feita na publicação oficial do dia da navegação. Confira também a unidade das sondagens e das alturas, normalmente indicada na própria carta.
A rosa dos ventos traz a orientação dos meridianos e a declinação magnética, com a indicação de sua variação anual. Como essa declinação muda com o tempo, verifique o ano a que a informação se refere antes de transferir um rumo verdadeiro para a bússola. Por fim, as graduações de latitude e de longitude nas margens servem para medir distâncias. Na escala de latitude, um minuto corresponde a uma milha náutica, unidade usada para medir distâncias no mar.
Como identificar símbolos com a Carta 12000?
A Carta 12000 é a publicação da Marinha que reúne os símbolos e as abreviaturas usados nas cartas brasileiras, e tem como base as especificações técnicas da Organização Hidrográfica Internacional (IHO). Quando um símbolo não for reconhecido de imediato, a consulta a essa publicação é mais confiável do que a memória ou a interpretação de outros materiais, porque um símbolo mal lido pode levar a uma decisão errada de rota.
Alguns grupos de informação merecem atenção especial. As sondagens são números colocados sobre a área de água, e cada um deles se refere ao nível de referência da carta, não ao nível da superfície no momento. As linhas de contorno de profundidade delimitam faixas de água com profundidades semelhantes, e o caminho de um canal costuma ser identificado por essas linhas e pelas sondagens lançadas ao longo dele. Os perigos isolados têm símbolos específicos, e algumas abreviaturas indicam se o obstáculo está submerso, descoberto em maré baixa ou emerso.
As luzes são descritas por um conjunto de dados: cor, caráter da luz (por exemplo, fixa, lampejos, isofase ou ocultação, com abreviaturas padronizadas), período, alcance e, quando houver, a altura da luz. Não identifique um farol apenas pelo ícone. Leia a descrição completa e compare-a com a lista oficial de faróis e sinais antes de usá-la como referência de posição.
As boias e balizas têm forma, cor, marca de topo e, quando existentes, características luminosas. Como o significado de uma boa parte da sinalização depende da região e do sentido de entrada, a legenda da própria carta e a publicação de sinalização náutica devem ser consultadas antes de qualquer manobra em canal. Se restar dúvida sobre um símbolo ou uma abreviatura, não avance por suposição: reduza a velocidade, procure referências visuais e confirme a informação antes de prosseguir.
Como manter a carta atualizada com os Avisos aos Navegantes?
Os Avisos aos Navegantes são o instrumento pelo qual a DHN comunica alterações que afetam a navegação, como mudanças na sinalização, novos perigos, modificações de canais e atualização de faróis. Segundo o informe nacional do Brasil apresentado à IHO, a manutenção das cartas e publicações é feita pela difusão quinzenal desses avisos, seguida, quando necessário, da publicação de novas edições.
Na prática, a carta de papel é entregue com a informação de que foi atualizada até o último aviso publicado na data de sua impressão. Isso significa que os avisos publicados depois dessa data ainda precisam ser aplicados à carta. Antes de cada travessia, faça o seguinte: anote o número e a data do último aviso que a carta contém; localize, no acervo de avisos publicado pela DHN, todos os avisos posteriores que afetem a área; e aplique cada correção à carta, no ponto indicado, com o cuidado de deixar a alteração legível e datada.
Se a carta foi adquirida há algum tempo ou se a área de navegação mudou, a verificação deve ser ainda mais criteriosa. As fontes oficiais consultadas não detalham o procedimento de correção manual passo a passo; por isso, siga as instruções contidas nas publicações da própria DHN e, em caso de dúvida, não considere a carta atualizada.

Por que conferir o datum WGS-84 antes de usar o GPS?
O datum é o modelo matemático que define como as coordenadas se relacionam com a superfície da Terra. Quando a carta e o receptor de GPS usam datums diferentes, a posição mostrada no equipamento pode ficar deslocada em relação ao que está desenhado na carta, e esse deslocamento pode ser suficiente para colocar o barco sobre um banco de areia ou fora de um canal. As fontes oficiais recomendam o uso do datum WGS-84 tanto no receptor de GPS quanto no programa de visualização das cartas digitais.
A conferência deve ser feita em três pontos. No receptor, verifique a configuração do datum e não aceite o valor padrão sem olhar. No programa de visualização, confirme que o datum da carta é o mesmo. Na própria carta, leia a nota sobre o datum, porque edições antigas ou cartas de outras áreas podem usar referências diferentes. Quando houver discordância, não tente corrigi-la de memória: consulte a informação oficial da carta e use a posição obtida por marcação visual de referências conhecidas como verificação cruzada.
O GPS é um instrumento de apoio à navegação, e não deve ser a única fonte de posição. Compare sempre a posição do equipamento com a leitura visual de faróis, de marcas de terra e de alinhamentos. Se a posição do GPS e a leitura visual não coincidirem, a decisão mais segura é reduzir a velocidade e confirmar a posição antes de continuar.
Como escolher o formato e onde obter cartas oficiais?
A carta de papel é a referência principal, e as informações oficiais dão a ela o papel de base. Segundo a página de serviços de cartografia da Marinha, a impressão é feita pela Base de Hidrografia da Marinha em Niterói (BHMN), e a venda e a distribuição são feitas pela Empresa Gerencial de Projetos Navais (EMGEPRON). O prazo informado é de 10 a 17 dias úteis, de modo que a compra deve ser feita com antecedência. O catálogo, as condições e os prazos ficam disponíveis no site cartasnauticasbrasil.com.br.
As cartas de navegação raster (RNC) são disponibilizadas gratuitamente para download no formato NOAA-BSB versão 3.0, no site da Marinha do Brasil, e servem como cópia digital da carta de papel. Elas não dispensam o uso concomitante da carta de papel atualizada até o último aviso. Use a raster para planejamento, para conferência e como reserva em um equipamento de navegação, mas não como substituta da carta física em uma travessia.
As cartas de navegação eletrônicas (ENC) são vendidas apenas por distribuidores internacionais dos centros regionais, por meio do International Centre for ENC’s (IC-ENC). A lista de ENCs disponíveis para venda pela EMGEPRON também está no site cartasnauticasbrasil.com.br. Antes de adquirir uma ENC, confirme se o seu equipamento é compatível com o formato, porque as especificações de exibição e de atualização variam. Para essa verificação, consulte a documentação técnica do fabricante do equipamento.
Quais erros evitar ao ler uma carta náutica?
Os erros mais frequentes não estão na falta de conhecimento dos símbolos, mas na forma como a carta é usada. O primeiro é confiar apenas no GPS e deixar de conferir a carta com referências visuais. O segundo é navegar com uma carta sem verificar a data e o número do último aviso aplicado. O terceiro é confundir a profundidade indicada na carta com a profundidade do momento, sem considerar a maré prevista para o horário da passagem.
Outros erros comuns são usar uma escala grande demais para planejar uma travessia longa, ignorar a rosa dos ventos e a declinação ao transferir rumos, ler uma luz ou uma boia sem consultar a descrição completa, e usar uma carta de outra área para orientar uma aproximação. Também é um erro manter uma carta em uso sem registrar as correções feitas, porque outra pessoa a bordo pode tomar decisões com informação incompleta.
Se a leitura da carta levantar qualquer dúvida em uma passagem estreita, em área de pouca profundidade ou com visibilidade reduzida, a conduta mais segura é diminuir a velocidade, manter vigilância visual, confirmar a posição por mais de um meio e, se necessário, interromper a aproximação até que a informação esteja confirmada. A carta é uma ferramenta de decisão, e a decisão final cabe ao condutor da embarcação.
Perguntas frequentes
Posso usar uma carta náutica de outro país em águas brasileiras?
Não é recomendável. Use a carta oficial brasileira para águas brasileiras, porque datum, sinalização e convenções de representação podem diferir. As fontes oficiais consultadas não tratam do uso de cartas estrangeiras em águas nacionais.
O que fazer se a profundidade do sonda ou a posição do GPS não coincidirem com a carta?
Reduza a velocidade, procure referências visuais e confira o datum e o nível de maré. Se a divergência persistir, não avance e aguarde condições de confirmação da posição antes de continuar.
A carta de papel antiga precisa ser trocada?
As fontes oficiais consultadas não especificam uma regra de troca por idade. O que importa é que a carta esteja corrigida com todos os avisos publicados desde a sua edição.